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Confissão

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Não amei bastante meu semelhante, não catei o verme nem curei a sarna. Só proferi algumas palavras, melodiosas, tarde, ao voltar da festa. Dei sem dar e beijei sem beijo. (Cego é talvez quem esconde os olhos embaixo do catre.) E na meia-luz tesouros fanam-se, os mais excelentes. Do que restou, como compor um homem e tudo que ele implica de suave, de concordâncias vegetais, murmúrios de riso, entrega, amor e piedade? Não amei bastante sequer a mim mesmo, contudo próximo. Não amei ninguém. Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido – que se esfacelou na asa do avião. Carlos Drummond de Andrade

Deus e suas criaturas

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Quem morre vai descansar na paz de Deus . Quem vive é arrastado pela guerra de Deus. Deus é assim: cruel, misericordioso, duplo. Seus prêmios chegam tarde, em forma imperceptível. Deus, como entendê-lo? Ele também não entende suas criaturas, condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte. Carlos Drummond de Andrade  Fonte: http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema078.htm

A puta

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Quero conhecer a puta. A puta da cidade. A única. A fornecedora. Na Rua de Baixo onde é proibido passar. Onde o ar é vidro ardendo e labaredas torram a língua de quem disser: Eu quero a puta quero a puta quero a puta. Ela arreganha dentes largos de longe. Na mata do cabelo se abre toda, chupante boca de mina amanteigada quente. A puta quente. É preciso crescer esta noite a noite inteira sem parar de crescer e querer a puta que não sabe o gosto do desejo do menino o gosto menino que nem o menino sabe, e quer saber, querendo a puta. Carlos Drummond de Andrade http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema052.htm

Nosso Tempo

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Carlos Drummond de Andrade Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra. Visito os fatos, não te encontro. Onde te ocultas, precária síntese, penhor de meu sono, luz dormindo acesa na varanda? Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo sobe ao ombro para contar-me a cidade dos homens completos. Calo-me, espero, decifro. As coisas talvez melhorem. São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas, enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir. II Esse é tempo de divisas, tempo de gente cortada. De mãos viajando sem braços, obscenos gestos avulsos. Mudou-se a rua da infância. E o vestido vermelho vermel...