DO TEMPO
I No ombro do dia (que anoitece) reflexo n’água (que anoitece) o homem se afunda (e amanhece.) Na moita da noite o sonho é fundo. Na noite do dia o sonho é fundo. O sonho é fundo: o homem cresce. Do fundo do sonho o sonho é alto, de amor se tece. O homem é sua paisagem. E amanhece. O tempo é uma cobra. De repente se desdobra e vaza a pupila. A noite é funda, a morte tece. Dentro de si o homem sabe. E amanhece. II O dia desdobrado em natureza viva sobre a toalha bordada do acaso. O dia cotidiano entre as horas e as frutas na mesa. O dia a dia devorado na inconseqüência temporal, entre o mel e o silvestre e o pão de casa, a louça herdada e o talher de sempre, entre a palavra, o gesto de servir o prato e o trocado olhar sobre a mesa madurando a infância vegetal. O dia abre a boca, verde trevo entre os dentes. O dia entre as cercas vivas, entre a ponte mastiga o poente. O dia abre a porta...