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DO TEMPO

I No ombro do dia (que anoitece) reflexo n’água (que anoitece) o homem se afunda (e amanhece.) Na moita da noite o sonho é fundo. Na noite do dia o sonho é fundo. O sonho é fundo: o homem cresce. Do fundo do sonho o sonho é alto, de amor se tece. O homem é sua paisagem. E amanhece. O tempo é uma cobra. De repente se desdobra e vaza a pupila. A noite é funda, a morte tece. Dentro de si o homem sabe. E amanhece. II O dia desdobrado em natureza viva sobre a toalha bordada do acaso. O dia cotidiano entre as horas e as frutas na mesa. O dia a dia devorado na inconseqüência temporal, entre o mel e o silvestre e o pão de casa, a louça herdada e o talher de sempre, entre a palavra, o gesto de servir o prato e o trocado olhar sobre a mesa madurando a infância vegetal. O dia abre a boca, verde trevo entre os dentes. O dia entre as cercas vivas, entre a ponte mastiga o poente. O dia abre a porta...

POEMA MATEMÁTICO

Me somo E fico um Me multiplico E permaneço um. Me divido. E continuo um. Me diminuo. E resto um. Me escrevo E sou nenhum. ( Lindolf Bell)

Carta a um amor

Poderias deixar de ter sido o deslumbramento para mim? Responde-me: é preciso justificar. Olhei em teus olhos e falei: eis a minha morada. Ah! O mistério, o mistério foi suficiente para conter-nos. Mas entre as múltiplas tendências te escolhi e te ampliei. Um cavalo desenfreado correu-me quando tuas mãos floriram sobre mim. Tentei amar o irreversível mas o que se descobre ou cresce ou se lega ou perde equilíbrio e força. Pelas bordas das coisas se perdem os excessos e meu coração foi tanto quanto um coração pode ser. Não. Não quero extravasar de ti os outros, mas quero ser o eleito . Jamais nos é possível entrever, porque o que há em nós suspeita apenas, e o que vem para nós não nos pertence com facilidade. Poderias deixar de ter sido o deslumbramento para mim? Ainda que respondesses, sim, não o poderia aceitar. Olhei em teus olhos e falei: eis a minha morada. CONVOCAÇÃO - 1965

A POESIA

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"A poesia é o instrumento mais generoso para eliminar a solidão, a indiferença, o desencanto, o cinismo e a discri- minação. A solidão vale como espaço para refletir em profundidade sobre nosso destino comum e a ausência de solidariedade que deseqüilibra o sistema social, acentua privilégios e exclusões. Se o poema, muitas vezes, amadurece sem terras, em solidão, sua existência (resistência) se justifica para lembrar que o ser humano mais uma vez não é ilha, mas partilha." Fonte: http://www.lindolfbell.com.br/opoema_apalavra.php

Lindolf Bell

" Se não for sonho não vale a pena viver, pois de sonho em sonho aprende-se a SER ." Lindolf Bell Fonte: http://www.lindolfbell.com.br/opoema_apalavra.php

O poema das crianças traídas

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O Poema das Crianças Traídas Lindolf Bell foi um militante da poesia, nosso poeta que foi lindamente homenageado com a leitura desta poesia durante o Blumenália 30 anos. Eu vim da geração das crianças traídas. Eu vim de um montão de coisas destroçadas. Eu tentei unir células e nervos, mas o rebanho morreu. Eu fui à tarefa num tempo de drama. Eu cerzi o tambor da ternura, quebrado. Eu fui às cidades destruídas para viver os soldados mortos. Eu caminhei no caos com uma mensagem. Eu fui lírico de granas presas à respiração. Eu visualizei as perspectivas de cada catacumba. Eu não levei serragem ao corpo dos ditadores. Eu recolhi as lágrimas de todas as mães numa bacia de sombra. Eu tive a função de porta estandarte nas revoluções. Eu amei uma menina virgem. Eu arranquei das pocilgas um brado. Eu amei os amigos de pés no chão. Eu fui a criança sem ciranda. Eu acreditei numa igualdade total. Eu não fui canção, mas grito de dor. Eu tive por linguagem materna, roç...