PRESENÇA É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas Teu perfil exato e que , levemente, o vento Das horas ponha um frêmito em teus cabelos ... É preciso que a tua ausência trescale Sutilmente, no ar, o trevo machucado, A folhas de alecrim desde há muito guardadas Não se sabe por quem nalgum lugar móvel antigo ... Mas é preciso, também , que seja como abrir uma janela E respirar-te, azul e luminosa, no ar. É preciso a saudade para eu te sentir Como sinto – em mim –a presença misteriosa da vida ... Mas quando surges és tão outra múltipla e imprevista Que nunca te pareces com o teu retrato ... E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te ! QUINTANA, Mário – Melhores Poemas de Mário Quintana/seleção de Fausto Cunha – 9 ed. –São Paulo, p. 66 : Global, 1995